quarta-feira, novembro 14, 2007

Uma Noite Qualquer

Sentou-se deixando todo o peso de seu corpo forçar as três pernas do banquinho de madeira. Ele ranger perigosamente.

Olhou ao seu redor. Os rostos não lhe diziam nada. Não havia muitas pessoas, e ele não reconhecia nem mesmo o simpático senhor com o volumoso bigode grisalho atrás do balcão.
Apoiou a caneca na mesa e buscou o auxílio do cotovelo para recuperar o equilíbrio. Onde diabos estava?

Olhou demoradamente para suas calças. Eram de cor amarrom. Não se lembrava mais se por gosto ou tempo. Estava amarrotada. Cada mancha tinha uma origem. Cada resíduo uma história. O pequeno rasgo acima do joelho também rendera boas risadas. Mas não sabia o porquê. O que mais queria era entender se tinha restos de geléia ou vestígios de sangue escurecido na região do bolso direito.

Resolveu levantar os olhos mais uma vez. O que fazia naquela espelunca?

As grandes vigas de madeira sustentavam o lugar. O assoalho era velho e rangia muito com o passar das pesadas botas. Por que todos naquele lugar usavam botas? A visão começou a falhar. Não podia mais contar com seus malditos olhos. Não podia mais confiar em ninguém. O equilíbrio o abandonara momentos antes. Agora seus olhos. Começava a se preocupar se os outros funcionários de seu corpo tinham sido avisados de uma greve coletiva.

Ficou imóvel. Em silêncio. Tentou em vão. Não conseguiu identificar um megafone. Mas sabia que um motim estava prestes a acontecer. E sabia quem começou com tudo. Foram os malditos rins. Estavam sempre o incomodando. Que o diabo os amaldiçoe.

Fez um esforço monumental para encaixar o dedo mindinho na alça da caneca. Não entendia por que as pessoas que fabricavam esses copos odiavam o dedinho. Só cabiam os três mesmo. Que seja. Solveu o último gole.

Quando baixou a caneca novamente sentiu a perna formigar. Era o sinal. Ao diabo com os rins. Tomaria uma atitude naquele momento.

Levantou-se. As pernas fraquejaram. A vista embaçou.

Acordou. Não havia levantado. Ainda estava na mesa. Sozinho. Dormindo em seus próprios braços. Resolveu tomar uma atitude.

- Juninho a conta.

Tinha perdido a batalha, mas não a guerra.

A Páscoa

- Juninho! Cadê todo mundo?
- Ih patrão, só tô eu aqui. Sabe como é né? Na Páscoa todo mundo viaja. Só fiquei eu pra atender a freguesia.
- Além de mim, veio mais alguém hoje?
- Não patrão o senhor é o primeiro.
- Então pega uma breja e dois copos lá pra gente. Mas do americano hein!


Páscoa. Época de trocar deliciosos ovos de chocolate. Ao passear pelos corredores dos supermercados, as maravilhosas embalagens prateadas sobrevoam nossas cabeças tornando a confusão da escolha um épico. Chocolate branco, preto, ao leite, areado, com avelãs, crocante, com amêndoas, com brinquedos, com bombons e todos os tipos de guloseimas são encontrados nessa época “dando sopa”.

Mas não tinha algo a mais a ser comemorado nesse dia? A Páscoa mesmo não é no domingo? Por que o feriado é na sexta? Acho que tinha alguma coisa religiosa no meio.

- Tá aqui patrão. Ta esperando alguém?
- O copo é pra você mesmo! Senta aí rapaz.
- Ô doutor, não sei não...
- Pára de frescura, não tem ninguém esperando pra ser servido.
- Tá bom, um copinho não vai fazer mal pra ninguém.


Sexta-feira Santa. Sábado de Aleluia. Domingo de Páscoa. Acho que era essa a ordem.

- Juninho, você sabe o que se comemora na Páscoa?
- Nem começa patrão. Meu filho me perguntou a mesma coisa ontem!
- E o que você respondeu?
- Ih, vou contar pro senhor o que esse moleque arrumou para a minha cabeça.
- O Senhor ta no céu Juninho.
- Foi o que eu tentei explicar pra ele.


Juninho morava em uma casa alugada na Vila Carrão. Tinha uma mulher e três filhos. Dois meninos e uma menina. E foi justamente o mais novo que protagonizou a conversa que me contou.

- Papai, o que é Páscoa?
- Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!
- Igual ao Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.
- Ressurreição?
- É, ressurreição. Cleuza vem cá!
- Sim?
- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.
- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido. Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?
- Mais ou menos. Mamãe, Jesus era um coelho?
- O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Júnior, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã! Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola? Deus me perdoe! Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!
- Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- O Espírito Santo também é Deus?
- É sim.
- E Minas Gerais?
- Sacrilégio!
- É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?
- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus. É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito. Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!
- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.
- Coelho bota ovo?
- Chega! Deixa-me ir fazer o almoço que eu ganho mais!
- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era...era melhor,sim...ou então urubu.
- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né? Que dia ele morreu?
- Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.
- Que dia e que mês?
- Sabe que eu nunca pensei nisso? Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.
- Um dia depois!
- Não três dias depois.
- Então morreu na quarta-feira.
- Não, morreu na Sexta-feira Santa. Ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas? Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois. Pergunte à sua professora de catecismo!
- Papai, por que amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?
- É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas. Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no Sábado?
- Claro que não! Jesus morreu na Sexta!
- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?
- Ai...
- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.
- Só?
- Que eu saiba sim, por quê?
- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho. Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?
-Ai coitada!
-Coitada de quem?
-Da sua professora de catecismo!

- Juninho!
- Fala patrão.
- Senta que eu vou te servir hoje.


(* Baseado no texto “Páscoa quando se é criança” de L. F. Veríssimo)

Como eu Odeio Malandros de Oportunidade

- Juninho! Desce aquela gelada e uma porção de torresminho.
- Quer um limãozinho pra acompanhar chefe?
- Opa, pode trazer.

Sabe o que realmente me incomoda? Gente que muda para a versão malandra de um minuto para o outro. É como se tivesse um botão nas costas da pessoa que pudesse ser acionado sempre. As opções são 3: filhinho da mamãe, neutro e malandro de gafieira.

Se você ainda não sabe de que se trata, vou dar um exemplo: Sandy e Júnior no programa do João Gordo. Você sempre viu os irmãos sendo educados, polidos e respeitosos em todos os programas que freqüentam. Beijam a Hebe na boca, riem das piadas chatas do Gugu e elogiam o trabalho do Rami. Suas vidas são, praticamente, um conto da Disney.

- Olha o torresminho e a loira.
- Valeu Juninho!

Como eu ia dizendo, o que me irrita são justamente os “bonzinhos” que giram a chave da piração. De uma hora para outra a cordialidade vira bestialidade moderada. Um excesso de “porra”, “vai se fuder” e “filho da puta” tomam conta da entrevista, tornando-a insuportável.

Mas não é só no meio artístico que essa raça transita. No dia-a-dia, eles nos cercam esperando o momento certo para darem as suas deixas.

- Quer mais alguma coisa patrão?
- Troca a garrafa que essa veio furada!
- É pra já!

Conversando com alguns amigos de profissão, notei que poucos não passaram por uma situação ao menos parecida com essa: Você vai a uma festa do pessoal da empresa onde sua namorada trabalha. Logo ao entrar pela porta já reconhece os “coxinhas”. Pessoas engravatadas que só sabem falar sobre o trabalho na firma. Sapatos engomados, gravatas amassadas e o crachá da empresa no bolso da frente da camisa.

- E o Treze, será que vai dar trabalho?
- Não sei Seu Francis, mas São Jorge há de nos ajudar. Não merecemos passar por isso!

Eles cumprimentam sua namorada e logo em seguida te apertam a mão. Alguns até arriscam uma piadinha do tipo: “Você que agüenta essa mulher?”. E claro, por educação, sorrimos e concordamos. A festa continua. Começam as danças, os passos decorados, as gracinhas do Cintra da contabilidade. De repente os olhares se voltam para você. Sua namorada acabou deixando escapar que você é publicitário.

- Juninho!

O Oliveira se aproxima rapidamente. O sangue congela, a garganta seca e você pensa em uma maneira de sair daquele ambiente. Fingir um ataque epilético? Lembrar que deixou o filho brincando com as facas Guinzu? Tarde de mais.

- Opa, sua mulher falou que você é publicitário!
- Sou sim – respondo um pouco receoso.
- Assisti um comercial ontem rapaz, genial. É com aquela gostosa.

Pronto. Surgiu o malandro de oportunidade.

- É mesmo? Bom né? – concordo com certo mau-humor.
- Cara você sabe que eu tenho umas idéias para uma propaganda, ouve só. É do caralho! – empolga-se Oliveira.

Os minutos que se seguem são desnecessários. Produções hollywoodianas misturadas com piadas sem graça e muitos, mas muitos palavrões.

- ...e aí o carro explode e o português diz: “Mas ora pois”.

Tenho certeza que no cotidiano, Oliveira nunca dizia palavrões, nunca fugia das regras e com certeza não usava a criatividade. Mas naquele momento se sentiu impelido a mostrar sua malandragem, como se precisasse falar sobre isso para se “enturmar”.

- Vocês devem jogar sinuca o dia inteiro né? Jogar sinuca, beber cerveja e encontrar muita mulher famosa nas festas. Que vida boa!

Outro ponto. Me irrita profundamente achar que publicidade é um trabalho leve e sem compromisso. Onde acendemos um baseado e “piramos”.

- Sabe que eu...
- Oliveira deixa eu ir que a minha mulher tá me chamando – interrompo.
- Ok, vamos marcar uma cerveja...
- Claro depois eu te ligo.
- Tudo bem. Mas você não tem meu telefone.

- Juninho fecha a minha que hoje eu vou sair com a patroa.
- É pra já!

A Última Caneca

Passou o pano na última caneca. Com cuidado, acomodou-a ao lado da pilha formada por pratinhos, cinzeiros e copos americanos. Fechou a torneira. Enxugou as mãos. Satisfeito colocou as mãos na cintura e abaixou a cabeça suspirando profundamente.

Olhou para o relógio antigo pendurado sobre a porta. Quinze para as quatro. Colocou o avental atrás do balcão e caminhou até a mesa mais próxima. Puxou a primeira cadeira e com um movimento ágil deixou-a sobre a mesa com as pernas para o ar. Repetiu o movimento até que não houvesse outras senão as suas pernas sobre o velho assoalho.

Era um homem grande. O tempo havia lhe levado os cabelos, e as marcas em seu rosto revelavam preocupações e experiências vividas ao longo dos anos. Nunca sorria. Ou pelo menos, nunca o tinham visto sorrir. Os braços eram fortes e tatuados. Os traços já estavam borrados, deixando a perceber que representavam uma outra época na vida do sujeito.

Caminhava com serenidade, como se o tempo já não o incomodasse. Forçou uma porta velha e enferrujada. Ela rangeu com má vontade. Tirou um grande cabo de madeira. Com a extremidade inferior passou a varrer os males daquele chão. Manuseava aquele instrumento com força e eficiência, fazendo com que em pouco tempo já o guardasse novamente dentro do sensível armário.

Olhou a sua volta. Parecia tudo em ordem.

Foi até a cozinha com a mesma calma de antes. Pegou um grande balde com listras vermelhas e brancas dentro da dispensa. Carregou-o até o centro do salão tomando cuidado para não derramar o liquido que balançava perigosamente em seu interior. Olhou mais uma vez ao seu redor.

Com um pisão derrubou o balde e todo o seu conteúdo sobre o assoalho recém varrido. O liquido se espalhou por frestas e caminhos invisíveis a olho nu.

Dirigiu-se até a saída e tranqüilamente vestiu o seu sobretudo. Colocou um charuto pela metade na boca. Revirou os bolsos de seu casaco até retirar de um deles uma pequena caixa. Tirou um palito e o raspou na lateral da caixa. Uma pequena chama passou a brilhar na extremidade friccionada. Deu algumas baforadas para o fumo aceitar o fogo. Sem apagar o fósforo olhou novamente para o bar.

- Eu disse que não trabalho no feriado – disse o homem com um sorriso no rosto.

O palito aceso rodopiou no ar. Antes que caísse na gasolina o homem já tinha se perdido na escuridão da rua.